
Quando ela nasceu, seu peso e seu comprimento foram tão pequenos quanto o seu desenvolvimento mais tarde seria. Mas nem por isso, frágil, porque sua história é de força, de luta, de garra e de sofrimento. Sua caminhada, sua jornada neste planeta, acredito ser muito mais de ensinamentos, do que aprendizados, embora, as limitações impostas por seu retardo tenham provocado dificuldades de aprendizado.
Mas o que quero contar aqui não são os problemas conseqüentes de uma lesão cerebral, ocorrida não se sabe ao certo quando, nem onde. O objetivo é desabafar a dor de duas pessoas que foram pegas pelas armadilhas da esquizofrenia. Ela, como a protagonista dessa história, e eu como coadjuvante nesta luta diária e constante.
Seus passos sempre foram lentos e inseguros, precisando sempre da minha mão por perto para ampará-la. E por muitas vezes eu soltei a sua mão pra que ela aprendesse a caminhar sozinha, e com alegria e certo orgulho percebia que nem sempre ela caía. Sua fala, até hoje, ainda é um pouco difícil de compreender. Ontem, porque a lesão motora dificultava a sua expressão. Mas, hoje porque sua linguagem é outra. Seu mundo é outro. Sua visão, sua forma de sentir, agir e reagir estão imersos em uma confusão de sentimentos. Porque sua alma está doente. Sim. A esquizofrenia é uma doença da alma. E como compreender a alma? Como compreender os caminhos de algo que não conhecemos que foge ao nosso limite de racionalidade? E acredito que o grande problema seja este, não é para racionalizar, é para sentir, mas a nossa ínfima capacidade de sensibilidade também isto não permite, tornando assim, tudo muito dificultoso e dolorido.
A dor de uma mãe de um portador de esquizofrenia não está no fato de ter o filho com a doença, mas sim, no fato de nada se poder fazer mediante tanto sofrimento, angústia e dor de um filho.
É a consciência e o gosto amargo do reconhecimento da sua impotência, e o que é pior, da impotência do seu Amor. Porque é preciso muito mais que Amor. É preciso muito mais que tudo. É preciso o olhar-se todos os dias perante o espelho e saber que mais um dia de luta será travada contra as vozes e visões de um mundo irreal que teimam em arrastar o seu filho para um mundo de sombras e medos.
É ter que lutar contra a sua fragilidade de ser humano e não se permitir cair, desmoronar, ou até mesmo chorar. É estar consciente o tempo todo, que você está sozinha nesta luta. Sim! Sozinha. Porque cada qual tem a sua vida, tem os seus compromissos, e só um filho esquizofrênico me fez dar as costas a minha vida e aos meus compromissos.
Eis aí uma das peças dessa engrenagem. Um dos aprendizados a ser reconhecido. Castigo por eu sempre ter estado envolvida muito mais com a minha vida e com os meus compromissos do que com os meus filhos? Acredito que não. Eu estava de outra forma lutando pela sobrevivência de todos.
Mas a vida me pedia para entregar esta luta para outra pessoa, ou ao menos dividi-la com alguém. Entretanto, centralizei o poder em minhas mãos, e me intitulei a única capaz de levar adiante um compromisso assumido um dia por dois. E o que a gente não resolve, a vida devolve. E eu tive que parar. A esquizofrenia de minha filha me fez parar. Me fez perceber que eu precisava estar presente vinte quatro horas, não mais algumas horas. E o que é pior, me fez entender, que isso ainda é muito pouco.
Esse “Ser Especial” em minha vida, tem sido desde o seu nascimento a grande oportunidade para que eu possa compreender o sentido da palavra Maternidade. Ela é uma fonte inesgotável de aprendizado a cada dia. Chego a pensar às vezes, que todos os dias dela foram dedicados ao meu crescimento e ao de todos aqueles que tiveram o privilégio de estar ligado a ela, se assim quiserem ou puderem perceber isso.
Bem vinda minha filha as nossas vidas!